Eletroneuromiografia no Bebê Hipotônico
Dr. Marcelo Ribeiro Caetano
Nas crianças com menos de um ano de idade a síndrome
do bebê hipotônico (SBH) é uma das principais
indicações para realização de
eletroneuromiografia (ENMG). Embora a grande maioria dos
pacientes com SBH tenha no acometimento do sistema nervoso
central a sua etiologia, a ENMG é mandatória nos
demais casos e nos casos de dúvida, uma vez que o
método pode não somente diferenciar entre
acometimento central e periférico, como também,
em muitos casos, localizar a lesão no segundo
neurônio motor, nervo periférico, placa mioneural
ou músculo. O resultado pode muitas vezes orientar o
tratamento e indicar o prognóstico.
William David e H. Royden Jones publicaram em 1994 na Muscle and
Nerve um trabalho relatando todos os bebês avaliados no
laboratório deles entre 1979 e 1990, de causa não
central. Quarenta e um pacientes foram selecionados, dos quais
39 tinham biópsia de nervo e ou músculo. O achado
da ENMG foi comparado com o da biópsia e demais dados
clínicos. O resultado mostra claramente que nos pacientes
com acometimento do segundo neurônio motor e de nervo
periférico, a ENMG é extremamente sensível,
enquanto que no acometimento muscular houve um falso positivo
de 33% do método. Os acometimentos de placa são
em pequeno número, dificultando a avaliação
da sensibilidade, entretanto no único caso a ENMG foi
positiva. O padrão eletroneuromiográfico utilizado para
o diagnóstico de miopatia foi de recrutamento paradoxal
(muitas unidades motoras disparando com frequência normal,
incompatível com a força desenvolvida pelo paciente)
e potenciais de unidade motora com amplitude e
duração reduzidas. Para segundo neurônio
motor foi a presença de ondas positivas ou
fibrilações, associado a potenciais de unidade
motora com amplitudes e durações aumentadas. No
caso de placa mioneural vale o decremento ou incremento no teste
de estímulo repetitivo. As polineuropatias têm na
neurocondução o marco do diagnóstico, com
potenciais sensitivos e ou motores com amplitudes reduzidas e
velocidades reduzidas.
Vale lembrar entretanto que é necessário haver suspeita
clínica de acometimento de placa mioneural para que um
correto exame de estímulo repetitivo (que é bem
desconfortável) seja realizado. Outro ponto importante
é que muitas miopatias apresentam abundantes ondas
positivas (miopatia congênita com núcleos centrais,
doença de Pompe, etc), e que nesses casos é mister
avaliar o recrutamento e os potenciais de unidade motora, para
diferenciar de segundo neurônio motor. Nos pacientes
extremamente flácidos, entretanto a ausência de
recrutamento impossibilita a diferenciação entre
as duas possibilidades.
McConke e Mullens descrevem no periódico Anasth Intensive
Care de Fevereiro de 2000 um caso clínico de um bebê
de 4 meses de idade internado em um CTI, com insuficiência
respiratória, que tinha o diagnóstico prévio
de hipóxia neonatal. Durante a internação um
intensivista suspeitou de uma doença de placa mioneural
devido a aparência facial do bebê. Realizado a ENMG
evidenciou-se decremento importante no estímulo repetitivo,
que normalizava-se após aplicação de
neostigmina. A terapia com anticolinesterase teve dramática
melhora do quadro clínico do paciente, tendo o mesmo
conseguido andar com 14 meses e com 18 meses subir degraus.
A face característica da distrofia miotônica
congênita, o padrão distal das polineuropatias, o
fenótipo cacterístico do bebê com
Werdnig-Hoffmann, o achado de uma cardiomegalia importante
nadoença de Pompe e a história materna de miastenia
na forma neonatal transitória de Miastenia são
alguns exemplos de padrões que podem servir de dicas no
planejamento do exame de eletroneuromiografia nesta faixa
etária.
Referências bibliográficas
1-David W S, Jones Jr, H R. Electromyography and biopsy
correlation with suggesred protocol for evaluatuin of floppy
nfant. Muscle Nerve 1994;17:424-430.
2-McConjey P P, Mullens A J. Congenital myasthenic syndrome: A
rare, potentially treatable cause of respiratory failure in a
"floppy: infant. Anaesth Intensive Care 2000;28:82-86.
3-The Floppy weak infant revisited (editorial). Brain and
Development 2003;25:155-158
